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quinta-feira, 20 de outubro de 2011

"O Valor da Ingenuidade" - Almada Negreiros, in: 'Ensaios'

Encontrei este texto no site d'O Citador e não podia deixar de partilhar! Reflexões precisam-se!
O maior perigo que corre o ingénuo: o de querer ser esperto. Tão ingénuo que cuida, coitado, de que alguma vez no mundo o conhecimento valeu mais do que a ingenuidade de cada um. A ingenuidade é o legítimo segredo de cada qual, é a sua verdadeira idade, é o seu próprio sentimento livre, é a alma do nosso corpo, é a própria luz de toda a nossa resistência moral. 
Mas os ingénuos são os primeiros que ignoram a força criadora da ingenuidade, e na ânsia de crescer compram vantagens imediatas ao preço da sua própria ingenuidade. 
Raríssimos foram e são os ingénuos que se comprometeram um dia para consigo próprios a não competir neste mundo senão consigo mesmos. A grande maioria dos ingénuos desanima logo de entrada e prefere tricher no jogo de honra, do mérito e do valor. São eles as próprias vítimas de si mesmos, os suicidas dos seus legítimos poetas, os grotescos espanatalhos da sua própria esperteza saloia. 
Bem haja o povo que encontrou para o seu idioma esta denunciante expressão da pessoa que é vítima de si mesma: a esperteza saloia. A esperteza saloia representa bem a lição que sofre aquele que não confiou afinal em si mesmo, que desconfiou de si próprio, que se permitiu servir de malícia, a qual como toda a espécie de malícia não perdoa exactamente ao próprio que a foi buscar. Em português a malícia diz-se exactamente por estas palavras: esperteza saloia. 
Parecendo tão insignificante, a malícia contudo fere a individualidade humana no mais profundo da integridade do próprio que a usa, porque o distrai da dignidade e da atenção que ele se deve a si mesmo, distrai-o do seu próprio caso pessoal, da sua simpatia ou repulsa, da sua bondade ou da sua maldade, legítimas ambas no seu segredo emocional. 
Porque na ingenuidade tudo é de ordem emocional. Tudo. O que não acontece com as outras espécies de conhecimento onde tudo é de ordem intelectual. Na ordem intelectual é possível reatar um caminho que se rompeu. Na ordem emocional, uma vez roto o caminho, já nunca mais se encontrará sequer aquela ponta por onde se rompeu. 
O conhecimento é exclusivamente de ordem emocional, embora também lhe sirvam todas as pontas da meada intelectual. 

No Teatro da Vida, o papel principal... Muda!

Hoje em conversa com um primo, tive esta epifania... Tudo porque falávamos da Vida, dos acontecimentos que nos têm marcado, que nos marcaram e aquilo que gostávamos que não nos acontecesse!
Sim! Perceberam bem! Que não nos acontecesse... Isto porque temos uma tendência narcisista para pedir sofregamente... Que gostávamos que ter isto ou aquilo, ou que nos acontecesse isto ou aquilo... Pedir, pedir, pedir sempre sem parar...
O facto é que ambos nos recordamos de um ensinamento da nossa avó materna (Deus a tenha...): "Nunca remexas em demasia no que te incomoda ou não te traz felicidade... Nesse teatro o titular do papel principal muda rapidamente!".
Admito que, à época, não dei importância à frase... Até porque dei uma conotação negativa! Como se estivesse quase a desejar mal a alguém!
Agora, todos estes anos depois, compreendo que as coisas acontecem mesmo que não queiramos e a Vida toma um rumo, muitas vezes, fora do que esperamos. Podemos estar mal hoje, mas amanhã tudo é Lindo de novo... Se bem que devia ser Lindo todos os dias!
Mas, ser humano, é isto... Ser ator num teatro volátil e onde, por muito que tenhamos o guião bem estudado, a página vira com um sopro da Vida e a nós só nos restará esperar pela vez!

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Cogitações

Ter a percepção de que é preciso ser maior, melhor e mais pessoa, foi sempre um premissa na minha Vida. Ser sem, só, apenas parecer... Ter de ser mesmo!
Ser boa pessoa, não ser perturbador aos outros... Sim, não ser...! Porque o "não ser" também é uma forma de ser, nós é que temos a mania de conjugar a forma negativa da verbalização nos nossos pensamentos e acções.
O positivismo e o querer, aguerridos, são ferramentas fantásticas para o nosso dia-a-dia levam-nos a patamares de existência mais consistentes. Eu sei porque experimento essa sensação com alguma frequência. O problema começa a estar na duração...
Nem sempre conseguimos manter a nossa vigília emocional ao nível mais propício de uma felicidade e dinâmica coerente com a nessa necessidade. A piada, desta coisa chamada Vida, talvez esteja aí!
Ainda estou a descobrir, pois como dizem os meus queridos papás ainda sou um criança nesta coisa de lavrar o dia-a-dia com o sustento da alma.
Por enquanto resta-me amar, sofrer, chorar, rir,  perder, ganhar, sonhar... E já é bem bom, tomara todos pudessem ter tudo isto... Muitos só têm acesso a alguns...

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Seja o que Deus quiser!

Ontem à noite ao deitar-me, tive uma epifania... Como é habitual desde miúdo, costumo de orar um pouco, não que seja católico ferrenho, mas mais por necessidade de sentir que posso ter alguma fé em mim e nos outros! Vão-me perdoar, mas não me interessa discutir se isso é oportunismo ou insegurança... Fica para outras andanças...
Naquele momento ao acabar dei comigo a pensar no fim: "Seja o que Deus quiser!"... Logo após ter pensado aquilo vieram-me à cabeça outros pensamentos: "E se o que vai acontecer ou vou fazer não é o que ele quer!?"; "Se é apenas aquilo que nós queremos e acreditamos que é o que ele quer?" e "E se aquilo que acabamos por fazer - e que acreditamos ser aquilo que ele quer e que pensamos estar certo - é incorreto?"...
Naquele momentos entrei numa introspecção medonha e interminável!
O facto é que cada vez mais me interessa ser feliz mas acima de tudo não ter de recorrer a estratégias maliciosas para ter de singrar seja no que for...

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Solidão não é ser Solitário!

"Se protegerdes com demasiada devoção o jardin secret da tua alma, ele pode facilmente começar a florescer de um modo excessivamente luxuriante, transbordar para além do espaço que lhe estava reservado e tomar mesmo pouco a pouco posse da tua alma de domínios que não estavam destinados a permanecer secretos. E é possível que toda a tua alma acabe por se tornar um jardim bem fechado, e que no meio de todas as suas flores e dos seus perfumes ela sucumba à sua solidão." - Arthur Schnitzler, in 'Relações e Solidão'

Hoje de manhã dei comigo a pensar porque é que as pessoas em determinados momentos da Vida preferem a solidão à companhia de seres humanos!?
Por coincidência, recebi uma mensagem de uma amiga em que ela relatou no meio do seu texto que não tinha problemas em "falar para as paredes" e que acreditava que elas poderiam ouvi-la. Quando li isto admito que fiquei um pouco admirado, não pela negativa... Mas é revelador o facto de haver pessoas que estão bem com a solidão, ou que pelo menos fazem por estar.

Não me parece haver uma norma no facto de quem prefira, em determinados momentos, a auto-reflexão em detrimento da interacção. Acredito que haja gente que prefira a solidão nos momentos em que precisam de pensar e outros porque passaram por uma situação marcante e precisam de recuperar as mazelas. Cada uma é aceitável e deve ser respeitada!

Tudo isto leva-me ao tema principal deste post. Será que uma pessoa que prefere a solidão e um solitário são a mesma coisa? A minha modesta opinião é não... Pode parecer um conflito de conceitos, mas para mim um solitário é o que está descrito na citação de Arthur Schnitzler a um nível quase patológico ou enfermo. É um ser que, derivado ao excessivo tempo em Solidão, não consegue ser parte produtiva de uma comunidade e que já estravassou as fronteiras da Solidão razoável.

A Solidão tem o seu tempo e lugar, tal como dizia a minha amiga na sua mensagem.

Por fim, eu também gosto da Solidão e abraço-a quando preciso dela. Principalmente nos momentos mais negativos da minha vida e nesses apenas posso culpar a minha pessoa por dizer ou pensar asneiras!